Paris, Rilke

Publicado: dezembro 26, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Cidade das Trevas, Deutsch, Histórias da Vida, Português

Há textos que descrevem muito bem uma certa situação, um certo estado de espírito, e há pessoas que têm o dom de me mostrar essas passagens quando mais preciso. Uma delas, de hoje, da mesma pessoa:

“Ich bin in Paris, die es hören freuen sich, die meisten beneiden mich. Sie haben recht. Es ist eine große Stadt, groß, voll merkwürdiger Versuchungen. Was mich betrifft, ich muß zugeben, daß ich ihnen in gewisser Beziehung erlegen bin. Ich glaube, es läßt sich nicht anders sagen. Ich bin diesen Versuchungen erlegen, und das hat gewisse Veränderungen zur Folge gehabt, wenn nicht in meinem Charakter, so doch in meiner Weltanschauung, jedenfalls in meinem Leben. Eine vollkommen andere Auffassung aller Dinge hat sich unter diesen Einflüssen in mir herausgebildet, und es sind gewisse [105] Unterschiede da, die mich von den Menschen mehr als alles Bisherige abtrennen. Eine veränderte Welt. Ein neues Leben voll neuer Bedeutungen. Ich habe es augenblicklich etwas schwer, weil alles zu neu ist. Ich bin ein Anfänger in meinen eigenen Verhältnissen.

Ob es nicht möglich wäre, einmal das Meer zu sehen?”

Rainer Maria Rilke, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (22. Aufzeichnung)

“Estou em Paris, quem ouve isso alegra-se, a maioria me inveja. Têm razão. É uma grande cidade, grande e repleta de singulares tentações. Quanto a mim, devo admitir que de certa forma entreguei-me a elas. Acho que não há outro modo de dizer isso. Cedi a essas tentações, e isso trouxe certas transformações, se não no meu caráter, na minha concepção do mundo, e certamente na minha vida. Sob essas influências, formou-se em mim um conceito totalmente diverso de todas as coisas, há certas distinções que me separam mais das pessoas do que tudo até hoje. Um mundo transformado. Uma nova vida cheia de significados. No momento é um pouco difícil para mim, porque tudo é novo demais. Sou um aprendiz das minhas próprias circunstâncias de vida. Seria possível ver uma vez o mar?”

(desconheço o autor da tradução. Todos os direitos reservados a quem os detêm)

Perfect Whiteness

Publicado: dezembro 20, 2011 por Barão de Grão-Mogól em English, Histórias da Vida, V.V.

(to Z.)

Pale white is her skin

Beauty marks dot it

as if they were drops from a dark, beautiful rain

or tears from the Gods when they saw her time

- her time to leave them was nearing, so they cried -

 

the contrast of their darkness on her body is deafening

 

Beauty marks dot her skin,

Peach fuzz, paler than pale, encapsules it,

covers it as a timeless shield,

invites to the gentlest touches,

makes my fingers and my tongue instruments of scientifical precision

 

Peach fuzz, blonder than blonde, covers it,

covers her skin of perfect whiteness

Her hair, dark and long, is a crown,

flowing down on her shoulders, flowing down on her breasts,

(the way they cover her breasts)

 

the contrast of its darkness on her body is deafening

 

Red, rich red circles her mouth,

the young daughter of Kali Ma, red is the Mother’s tongue

 

Will I ever see her body lit by the Moon

on a field, on a beach, on a bed, windows wide open,

Will I ever see the way it shines under its light

The thought of how it will shine,

it makes me smile, and I feel good,

young Goddess of the Goth tribes,

 

I feel good, and I am at peace.

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O mistério dos nevos sumidos

Publicado: dezembro 18, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Histórias da Vida

Diz a Wikipédia:

Nevo (plural nevos), do Latim nævus (plural nevi) é o termo médico que descreve uma lesão na pele popularmente conhecida como mancha, pinta ou sinal.

Nunca fui tão pintado como muita gente que conheço. Mas que tinha meus nevos, minhas pintas, isso as tinha. Pinta no abdômen inferior, pinta nos ombros, nas costas, mas não no pinto. No pinto,  não tinha. Tinha, e não tenho: as ditas pintas sumiram.

Mas posso provar que as tive. Pelo menos há uns dois anos atrás, preocupado que sou, fui à uma dermatologista, que as examinou com parcimônia, decretou-as como benignas, e recomendou atenção, dando-me uma folha manuscrita contendo o diâmetro das pintas.  Tanta atenção tive que não lhes dei atenção mais, a elas, às pintas. Entretanto, o tal manuscrito médico está por aí, para comprovar a existência das pintas.

Até hoje de manhã. Saindo do chuveiro, pensando em pintas, não nas minhas, resolvi dar uma olhadinha nas de mais fácil acesso, naquelas no abdômen inferior, as que quase formavam um triângulo e que um velho alemão louco tinha dito uma vez, do seu delírio permanente, que seriam as marcas de um tridente com o qual eu teria sido espetado na minha última encarnação antes de me mandarem à fogueira por heresia pró-pagã. Ou algo assim, ele disse algo assim.

Pois a marca pré-encarnatória não estava mais lá.

Nem o triângulo, nem as outras, nada. Sumidas todas.

Olhei várias vezes. Olhei no espelho. Olhei o que dava para olhar nas costas. Nada.

Pânico.

Qual doença grave, mortal, pode levar ao desaparecimento de pintas ?

E quando elas desaparecem, quanto tempo tem-se ainda ?

Pânico no banheiro, pânico ao me vestir, pânico no metrô, pânico geral, torpedos enviados a pessoas de confiança, tentativas frustradas de consultar a Internet nos subterrâneos…

Só me acalmei mais tarde,  depois de várias horas de tormentos indescritíveis.

Effect of age

Moles tend to appear during childhood and gradually disappear after middle age.

(Efeitos da idade. Pintas tendem a surgir durante a infância e a desaparecer gradualmente depois da meia-idade)

Diz, aí também, a Wikipédia.

Alívio ! Mas, para ter certeza, vou arriscar uma nova ida à dermatologista.  Sem comprar crucifixos, não, nem outras menorás.

Só que isso agora da meia-idade começa a perturbar.

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Etymologies

Publicado: dezembro 15, 2011 por Barão de Grão-Mogól em English, Histórias da Vida

“No strings attached”, she said.

The Urban Dictionary presents some definitions of the phrase “No Strings Attached”. One of them uses these terms,

[it] means lets have some fun without creating any obligations beyond the moment. We do what we do tonight and dont ever have to see each other again. But without the negative connotation of one-night stand, even if that is what it is.

A second one goes,

No Strings Attached is a common English Adverb / expression that refers to no other obligations or responsibilities in a deal. The abrev. [sic, abbreviation for the expression N S A, commonly used in ads] has become connected to the casual sex terminology as someone wishing to engage in sexual activities while being free of all responsibilities associated with a romantic relationship.

He started thinking about it and came up with one of his own:

No Strings Attached (NSA) means as much as a serial one-night stand (ONS) between two persons. Or, in other words, a series of, or repeated,  ONS involving always the same (usually two) persons.

He thought of exploring the meaning of the words “string” and “attach”, imagining that the first comes directly from Old Anglo-Saxon and the second from Norman French, but who knows, and he really didn’t care about their etymologies, he cared more for the meaning of that phrase of hers, and how it would fit in what he had been experiencing. His mind started also digressing on the particle “No” and on the also urban discussions whether a “No” means really a “no” in its pristine sense, a “maybe” or, in this particular case, “a few” or “some”, but he also fought this distraction.

And then it happened that he found the key to be in the word “string”, and that he had been wrong in his etymology.

Merriam Webster´s online edition says about its origin,

Middle English, from Old English streng; akin to Old High German strang rope, Latin stringere to bind tight.

Having consulted Lewis & Short Latin Dictionary, he saw that this verb meant

to draw tight, to bind or tie tight; to draw, bind, or press together

and that it is synonymical to the “ligo” (or “ligare”).

At the end of a productive day, he came back with his second definition of the term “No Strings Attached”:

A non-relationship. As there is nothing binding its two parties  together, there can be no talk of a relationship when this term is used.

In other words: having no strings attached to a relationship means simply that there is nothing binding, tying together the people involved in it.

Each one on his own; there is no “us”, there is just “you” and “I”. And he thought of those languages that had the phenomenon of clusivity, as Tupi does.

And that is a totally different story altogether.

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Chopin e Pretenders

Publicado: novembro 23, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Cidade das Trevas, Histórias da Vida

O passeio os levou da estação Franklin Roosevelt, localizada nos Champs-Elysées, até o outro lado do rio, na região onde ela morava.

A iluminação natalina em todo seu esplendor. O tempo frio, mas mais quente que o que antes seria normal para meados de novembro, as lojas iluminadas convidando os consumidores a entrarem, a prolixidade da cor vermelha, cor quente, como se dizia em outras e distantes épocas ? “Coração é vermelho e no lado esquerdo do peito”, folhas soltas esvoaçando pela memória à fora, folhas amareladas pelos anos de descaso e esquecimento, como as folhas caindo no campo, silêncio perfeito de um outono no campo europeu, à distância, mas muito à distância, o ruído de um carro passando, alguns pássaros, nada mais: silêncio. “Sou viciado em silêncio”, ele tinha dito. E na noiteza da noite, the nightness of night.

Alguns dias só de separação entre o isolamente campestre e o burbulho metropolitano. Quantos ? Dois ? E se foram sentidos como muito mais ? Continuam sendo dois, somente ?

O contraste violento da calma rural e o trajeto na margem esquerda do rio, ilhados entre duas vias de tráfico intenso por uns duzentos metros, e a sensação que ele tinha de estar vivendo um filme, um desses trágicos e tristes onde o 3.o movimento da sonata n.o 2 em si bemol, op. 35, de Chopin é tocada bem no final… dá-lhe, que venha à tona seu lado (melo)dramático, que tome conta essa propensão à melancolia, herança maldita sabe-se lá vinda de onde !

Só que, algumas quadras à frente, o filme como que mudou: não mais a mesma música, e sim uma outra, mais alegre, ecos dos Pretenders, por exemplo, Chrissie Hynde que esteve em São Paulo e com quem nos escandalizamos, em solidariedade, por ter sido levada a comer, ela, a vegetariana, em uma hamburgueria chique da época, algo assim, quando ele percebeu a mudança em seu comportamento, quando o sorriso voltou ao rosto de sua companheira de passeios e de cama, de almoços rápidos durante a semana, quando ele a sentiu, de novo, próxima, alcançável, aberta para o que ele lhe propunha dar, ele sentindo sua guarda baixar, seus temores e suas feridas bem longe de estarem cicatrizadas presentes, mas não mais, como antes, tão perceptíveis para ele.

Ele se sentiu feliz, naqueles momentos, antes de partir, e antes das brumas tomarem de novo conta de seus pensamentos.

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Inventando Paris

Publicado: novembro 7, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Cidade das Trevas, Leituras

No final de uma história, de um capítulo na vida – ou deveria dizer, no final provável dessa história, no caso, da minha vida parisiense – parece ser regra a descoberta de novas sensações, novos pedaços até então desconhecidos, novas pessoas, como se a uma certa energia quisesse puxá-lo, mantê-lo por lá.

Há alguns meses atrás encontrei, por acaso, um livro que me chamou atenção, e que tive o prazer de acabar de ler:

Ele se chama “L’Invention de Paris. Il n’y pas des pas perdus” (A Invenção de Paris)*, e confesso que tenho dificuldade em categorizar seu gênero.

Uma história de Paris, sem dúvida, mas uma história tirada das páginas da literatura, sem ser uma mera coletânea de textos.  Um caminho por ruas antigas, por ruas que não existem mais, destruídas pela ânsia anti-revolucionária do tão festejado Haussman, de seus boulevards construídos para permitir, como é sabido, uma melhor movimentação de tropas para reprimir os levantes populares – e destruir bairros e comunidades consideradas como pouco fiáveis pelas elites francesas.

O livro merece uma releitura de minha parte, já que, além de trazer à tona o que se passou nas ruas que uso quotidianamente, ensinou-me, entre outras coisas,  que o Jardim de Luxemburgo não foi usado somente para os passeios dominicais da população parisiense. Especialmente não em certos dias de junho de 1848. Mais sobre isso, depois.

E merece, também, ser lido por todos que sentem uma atração especial por esta cidade, que a conhecem, ou pensam em conhecê-la, indo além da historiografia oficial: um passo a entender porque eu a chamo, a Paris, de Cidade (também) das Trevas.

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* Éric Hazan: L’Invention de Paris. Il n’y pas des pas perdus. Paris: Seuil, 2004. ISBN 978-2020685351. Há uma tradução em inglês: The Invention of Paris. A History in Footstepts. ISBN 978-1844677054

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Ruanda, 1994

Publicado: outubro 10, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Histórias da Vida

O ano era 1994, final do ano, talvez outubro como agora. Ainda morava em Freiburg, mas sabia que eram os últimos meses naquela cidade que se tinha transformada em minha terra natal alemã.Tempos difíceis, tempos de transição, a certeza de uma mudança iminente para Munique ocupava-me o pensamento, saber que não mais estaria próximo de minha filha contribuía para jogar-me num estado deplorável do qual tentava sair entregando-me, de maneira mais ou menos regular, a diversas atividades que, em outras épocas, chamavam-se “vícios”.

Era então uma noite de começo de outono, e eu estava indo até à festa (de aniversário?) de um antigo vizinho e, na época, amigo mais íntimo em um outro bairro da cidade.

Onde foi que a vi ? Não sei, só sei que a vi, jovem, negra, bonita, claramente africana, em um tempo e em um lugar onde esses encontros eram ainda raros e onde a memória de sua quotidianidade tinha começado a esvairecer-se.  Nossos olhares devem ter-se cruzado, eu insistindo, ela replicando, nesse jogo de sedução e flerte que aprendi a jogar com prazer.

Descemos juntos ? Ou eu desci com ela ?

Conversamos e trocamos algumas palavras, em francês ou inglês, já que ela não falava alemão. Francês, língua de contatos insólitos, tal como uma vez na rua Arbat em Moscou no final da era Gorbatchov…

Ela me disse que era de Ruanda, refugiada, e que tinha chegado há pouco na Alemanha. Na época, alguns meses depois do maior genocídio ocorrido após o final da Segunda Guerra ter terminado, algumas informações estavam sendo veiculadas sobre o ocorrido, as centenas de milhares de mortos em três meses, tutsis contra hutus, a passividade do mundo, a complacência e  a cumplicidade de vários países, especialmente a da França sob o tão idolatrado François Mitterand, tudo isso estava sendo repassado cautelosamente, e todos tínhamos somente um sentimento de imenso vergonha, aquela sensação de não-sei-o-que-dizer, esse mergulho nas profundezas, nas negruras do ser humano.

Nós, os que pensávamos e que pensamos, refletimos: a história já era velha, o Natal deveria estar chegando, quem ainda iria ocupar suas noites procurando saber o que tinha acontecido na África Central ? Mais um desses massacres tribais… o que isso não foi.

Não me atrevi a perguntar se era tutsi ou hutu, se tinha fugido porque fora vítima ou perpetradora, nada: despedimo-nos, ela não tinha um telefone, eu fui à festa, ela para algum outro lugar.

A imagem desse encontro foi arquivada, e só reativada quando comecei a me interessar mais pela história do que se passou em Ruanda em 1994.

“There was something about Rwanda…”

Eu a encontrei uma outra vez, quando visitava Freiburg em um fim-de-semana, alguns meses depois, em algum bar, ela na companhia de um alemão. Reconhecemo-nos; porém estava tácito de que não falaríamos, a não ser utilizando a linguagem dos olhos.

Que ela nunca lerá isso, que esse encontro deve ter sido também arquivado em algum lugar bem profundo de sua memória, está claro… mas a imaginação me faz pensar que ela, num desses momentos em que os arquivos forçam seu caminho à tona, esses momentos como os que tive com ela – que ela pense naquela noite de outono e naquele homem com quem conversou, pouco depois de ter chegado na Europa.

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Punk

Publicado: junho 21, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Histórias da Vida

Bato na porta do quarto.

“E aí, meu?”

“E aí, Renato ? Meu, puta cheiro. Deixa eu dar uma bola aí, meu”.

“Ah, é o incenso”

“Vá tomar no cu. Pode até ser que tenha cara de careta, meu, mas sou muy loco.”

“Toma aí.”

A porta não só se abriu para o que se estava consumindo mas também para um mundo ao qual eu não tinha ainda acesso, no qual estava entrando, engatinhando.

Fast reward, ano zero menos um, 1979: descobrindo, nem sei como, Carlos Castañeda no Gabinete de Leitura Rio-Clarense, sede da Biblioteca Municipal, edifício visitado por Sua Majestade Imperial Dom Pedro II, Defensor Perpétuo do Brasil, avenida 4, entre as ruas 5 e 6. Lia tudo. E acabei lendo as histórias do Don Juan. Falando com os loucos presumidos da minha classe, da 3a. série, confessando que queria experimentar tudo isso, eu, louco que não era ainda. Até que virei um dia no XI, não sei com quem, uma primeira vez que não me deu nada, uma segunda vez na casa de um alemão louco (em vários sentidos) da minha turma, na sua casa nos limites de São Paulo, às margens de uma grande represa, sendo levado por ele de moto até algum ponto de ônibus que me traria da barbárie à civilização, a cabeça explodindo.

Ao bater na porta não abri só a porta a anos de intenso delirio, abri também as portas para um mundo ao qual, ainda hoje, direita ou esquerda, isso ou aquilo me sinto ligado, entreleçado: punk. As primeiras músicas ouvidas do Sex Pistols, do Clash, dos Ramones. A idéia de A-N-A-R-Q-U-I-A: fuck the fucking system. Dead Kennedys: sex and violence. Pistols: I killed Bambi. Fuck Bambi.

Billy Bragg canta, ou cantava, antes de comprar sua mansão por um milhão de libras esterlinas, “There is power in the union”. Se cantasse, cantaria: there is power in punk. Há uma energia na música punk que não sinto em nenhuma outra, uma energia que fala comigo, que se traduz em pulsações dentro de mim que nenhuma outra consegue.

Pogo ! Dançar pulando e se batendo, empurrando e sendo empurrado no meio de uma malta, saindo de lá com manchas roxas e uma vez de óculos quebrados, idiota que fui de dançar sem os tirar, dançar e perder-se no meio de todos, agora todos com a idade da minha filha que, sei, também dançou a dança: ela se comporta como eu, usa a força dos seus braços, integra-se à turba, desintegra-se nela, como eu o faço ?

Energia. Vida. Juventude. Juventude que não se mede com a idade que tenho, com a idade que mostro no meu corpo, com a que os outros vêem quando me vêem, um quase cinquentão em sua camiseta preta, sua calça preta, seu casaco de couro preto, seus cabelos grisalhos, sua barba grisalha, caindo dentro da roda, desintegrando-se na roda. Êxtase semi-dionosíaco.

Está dentro das tuas veias, está no teu sangue.

Punx not dead. Adiciono ao clichê: and wont ever be.

Midlife crisis ? Fuck it.

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“Berlin – The Downfall 1945″

Publicado: maio 15, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Leituras, Português

Motivado por um filme alemão que assisti recentemente, estou lendo “Berlin – The Downfall 1945″ do historiador britânico Antony Beevor, especialista em história militar, que descreve os últimos meses da 2a. Guerra Mundial com foco na frente oriental até a tomada de Berlim em abril de 1945.

O livro também está traduzido em português.

Ganz unten, und noch tiefer*

Publicado: maio 8, 2011 por Barão de Grão-Mogól em Cidade das Trevas, No metrô, Português

“Ganz unten” é o título de uma obra de jornalismo investigativo alemã publicada em 1985 por Günter Walraff, que descreve suas experiências ao viver disfarçado como trabalhador turco na Alemanha dos anos 80 do século passado. Em português, ela foi traduzida como “Cabeça de Turco”.

Eu sempre pensei nessas palavras: ganz unten, bem embaixo, sempre que os vejo pelas ruas e pelo metrô desta cidade.  Moradores de rua, a designação politicamente correta, ou então no jargão oficial SDF (sans domicile fixe).  Estão por toda a parte, em todos os bairros, em todos os metrôs, em todas as estações.  Você os vê dormindo em seus sacos de dormir, estendidos, quando possível, nos bancos das estações, em alguma entrada de edifício que proporcione algum tipo de cobertura.

Você os vê ? Às vezes você os vê, mas na maioria dos casos são como sombras que passam, aquele camundonguinho que você vê, ou via passar com o rabo dos olhos mas que não registrava, ou que escolhia não registrar, para evitar certos pensamentos incômodos.  Ou aquela barata. O sol está brilhando lá fora, não está ? O que é uma sombra que passa ? Então…

Há de tudo, há os que escolheram essa vida, há os alcoólatras, há os que recolhem livros usados e os vendem na rua, há os que se esforçam para manter-se limpos e de alguma maneira vestidos decentemente,  há os doentes mentais que por razões que desconheço são deixados soltos pelas ruas sem tratamento,  há os violentos, aqueles que mais de uma vez empurraram alguém esperando o metrô para dentro dos trilhos quando o trem estava chegando.

Todos eles estão ganz unten, bem embaixo, bem no fundo, no porão, no 4.o subsolo da sociedade.

E de vez em quando, uma ou duas vezes por mês, você vê aqueles que estão mais embaixo ainda.

Na maioria das vezes, você os sente primeiro: entrando no vagão do metrô, um odor nauseabundo (fedor, mesmo) vem depois de alguns segundos às suas narinas, você se pergunta às vezes o que pode ser, começa a olhar para os lados e seu olhar os encontra, isolados naqueles compartimento de seis pessoas, três de cada lado, que se situam na parte dianteira e posterior de cada vagão. Uma mistura de não-sei-o-quê, o cheiro de urina dominando todos os outros, a cabeça abaixada, os olhos fechados, perdidos em algum lugar, sem mais nenhuma conexão com o resto do mundo e da sociedade, um pedaço de carne estragada, coberta de trapos, atraindo moscas e a repulsão natural dos que ali estão.

Ou então você o vê passeando pela Champs-Elysées, descalço, segurando com as mãos uma calça para que ela não caia, andando por entre as hordas de turistas e passando em frente das lojas que nos prometem “a guaranteed personality” nas palavras do The Clash, uma figura vinda de outro mundo, de outras terras, de um outro tempo, algo que você esperava ver na sua terra natal, na Índia, na mais negra das negras Áfricas, mas não, jamais lá, jamais aqui.

E você continua seu caminho, saindo do metrô e andando naquele seu passo corrido, indo para onde tem que ir ou quer ir, deixando a sombra passar, deixando o cheiro daquele ser humano ser substituído pelos perfumes de alguma mulher que passa ao seu lado, se afastando, pondo de lado, tentando pôr de lado. Tentando.

Porque, às vezes, você se vê pensando : Ganz unten, und noch tiefer.

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* Bem embaixo, e mais fundo ainda


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